A caçada - Lygia Fagundes Telles
A Caçada
A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos
embolorados e livros comidos de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou
numa pilha de quadros. Uma mariposa levantou voo e foi chocar-se contra uma
imagem de mãos decepadas.
— Bonita imagem — disse.
A velha tirou um grampo do coque e limpou a unha do polegar. Tornou a enfiar
o grampo no cabelo.
— É um São Francisco.
Ele então se voltou lentamente para a tapeçaria que tomava toda a parede no
fundo da loja. Aproximou-se mais. A velha aproximou-se também.
— Já vi que o senhor se interessa mesmo é por isso. Pena que esteja nesse
estado.
O homem estendeu a mão até a tapeçaria, mas não chegou a tocá-la.
— Parece que hoje está mais nítida…
— Nítida? — repetiu a velha, pondo os óculos. Deslizou a mão pela superfície
puída. — Nítida como?
— As cores estão mais vivas. A senhora passou alguma coisa nela?
A velha encarou-o. E baixou o olhar para a imagem de mãos decepadas. O
homem estava tão pálido e perplexo quanto a imagem.
— Não passei nada. Por que o senhor pergunta?
— Notei uma diferença.
— Não, não passei nada, essa tapeçaria não aguenta a mais leve escova, o
senhor não vê? Acho que é a poeira que está sustentando o tecido — acrescentou
tirando novamente o grampo da cabeça. Rodou-o entre os dedos com ar pensativo.
Teve um muxoxo: — Foi um desconhecido que trouxe, precisava muito de dinheiro.
Eu disse que o pano estava por demais estragado, que era difícil encontrar um
comprador, mas ele insistiu tanto. Preguei aí na parede e aí ficou. Mas já faz anos
isso. E o tal moço nunca mais me apareceu.
— Extraordinário…
A velha não sabia agora se o homem se referia à tapeçaria ou ao caso que
acabara de lhe contar. Encolheu os ombros. Voltou a limpar as unhas com o
grampo.
— Eu poderia vendê-la, mas quero ser franca, acho que não vale mesmo a
pena. Na hora que se despregar é capaz de cair em pedaços.
O homem acendeu um cigarro. Sua mão tremia. Em que tempo, meu Deus! em
que tempo teria assistido a essa mesma cena. E onde?…
Era uma caçada. No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado,
apontando para uma touceira espessa. Num plano mais profundo, o segundo
caçador espreitava por entre as árvores do bosque, mas era apenas uma vaga
silhueta cujo rosto se reduzira a um esmaecido contorno. Poderoso, absoluto era o
primeiro caçador, a barba violenta como um bolo de serpentes, os músculos tensos,
à espera de que a caça levantasse para desferir-lhe a seta.
O homem respirava com esforço. Vagou o olhar pela tapeçaria que tinha a cor
esverdeada de um céu de tempestade. Envenenando o tom verde-musgo do tecido,
destacavam-se manchas de um negro-violáceo que pareciam escorrer da folhagem,
deslizar pelas botas do caçador e espalhar-se no chão como um líquido maligno. A
touceira na qual a caça estava escondida também tinha as mesmas manchas, que
tanto podiam fazer parte do desenho como ser simples efeito do tempo devorando
o pano.
— Parece que hoje tudo está mais próximo — disse o homem em voz baixa. —
É como se… Mas não está diferente?
A velha firmou mais o olhar. Tirou os óculos e voltou a pô-los.
— Não vejo diferença nenhuma.
— Ontem não se podia ver se ele tinha ou não disparado a seta…
— Que seta? O senhor está vendo alguma seta?
— Aquele pontinho ali no arco…
A velha suspirou:
— Mas esse não é um buraco de traça? Olha aí, a parede já está aparecendo,
essas traças dão cabo de tudo — lamentou disfarçando um bocejo. Afastou-se sem
ruído com suas chinelas de lã. Esboçou um gesto distraído. — Fique aí à vontade,
vou fazer um chá.
O homem deixou cair o cigarro. Amassou-o devagarinho na sola do sapato.
Apertou os maxilares numa contração dolorosa. Conhecia esse bosque, esse
caçador, esse céu — conhecia tudo tão bem, mas tão bem! Quase sentia nas
narinas o perfume dos eucaliptos, quase sentia morder-lhe a pele o frio úmido da
madrugada, ah, essa madrugada! Quando? Percorrera aquela mesma vereda,
aspirara aquele mesmo vapor que baixava denso do céu verde… Ou subia do chão?
O caçador de barba encaracolada parecia sorrir perversamente embuçado. Teria
sido esse caçador? Ou o companheiro lá adiante, o homem sem cara espiando por
entre as árvores? Uma personagem de tapeçaria. Mas qual? Fixou a touceira onde a
caça estava escondida. Só folhas, só silêncio e folhas empastadas na sombra. Mas
detrás das folhas, através das manchas pressentia o vulto arquejante da caça.
Compadeceu-se daquele ser em pânico, à espera de uma oportunidade para
prosseguir fugindo. Tão próxima a morte! O mais leve movimento que fizesse, e a seta… A velha não a distinguira, ninguém poderia percebê-la, reduzida como
estava a um pontinho carcomido, mais pálido do que um grão de pó em suspensão
no arco.
Enxugando o suor das mãos, o homem recuou alguns passos. Vinha-lhe agora
uma certa paz, agora que sabia ter feito parte da caçada. Mas essa era uma paz
sem vida, impregnada dos mesmos coágulos traiçoeiros da folhagem. Cerrou os
olhos. E se tivesse sido o pintor que fez o quadro? Quase todas as antigas
tapeçarias eram reproduções de quadros, pois não eram? Pintara o quadro original
e por isso podia reproduzir, de olhos fechados, toda a cena nas suas minúcias: o
contorno das árvores, o céu sombrio, o caçador de barba esgrouvinhada, só
músculos e nervos apontando para a touceira. “Mas se detesto caçadas! Por que
tenho que estar aí dentro?”
Apertou o lenço contra a boca. A náusea. Ah, se pudesse explicar toda essa
familiaridade medonha, se pudesse ao menos… E se fosse um simples espectador
casual, desses que olham e passam? Não era uma hipótese? Podia ainda ter visto o
quadro no original, a caçada não passava de uma ficção. “Antes do aproveitamento
da tapeçaria…”, murmurou, enxugando os vãos dos dedos no lenço.
Atirou a cabeça para trás como se o puxassem pelos cabelos, não, não ficara
do lado de fora, mas lá dentro, encravado no cenário! E por que tudo parecia mais
nítido do que na véspera, por que as cores estavam mais fortes apesar da
penumbra? Por que o fascínio que se desprendia da paisagem vinha agora assim
vigoroso, rejuvenescido?…
Saiu de cabeça baixa, as mãos cerradas no fundo dos bolsos. Parou meio
ofegante na esquina. Sentiu o corpo moído, as pálpebras pesadas. E se fosse
dormir? Mas sabia que não poderia dormir, desde já sentia a insônia a segui-lo na
mesma marcação da sua sombra. Levantou a gola do paletó. Era real esse frio? Ou
a lembrança do frio da tapeçaria? “Que loucura!… E não estou louco”, concluiu num
sorriso desamparado. Seria uma solução fácil. “Mas não estou louco.”
Vagou pelas ruas, entrou num cinema, saiu em seguida e quando deu acordo
de si, estava diante da loja de antiguidades, o nariz achatado na vitrina, tentando
vislumbrar a tapeçaria lá no fundo.
Quando chegou em casa, atirou-se de bruços na cama e ficou de olhos
escancarados, fundidos na escuridão. A voz tremida da velha parecia vir de dentro
dos travesseiros, uma voz sem corpo, metida em chinelas de lã: “Que seta? Não
estou vendo nenhuma seta…”. Misturando-se à voz, veio vindo o murmurejo das
traças em meio de risadinhas. O algodão abafava as risadas que se entrelaçaram
numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num tecido com manchas que
escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja
o aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso podia distinguir as
serpentes enleadas num nó verde-negro. Apalpou o queixo. “Sou o caçador?” Mas
em vez da barba encontrou a viscosidade do sangue.
Acordou com o próprio grito que se estendeu dentro da madrugada. Enxugou o
rosto molhado de suor. Ah, aquele calor e aquele frio! Enrolou-se nos lençóis. E se
fosse o artesão que trabalhou na tapeçaria? Podia revê-la, tão nítida, tão próxima
que se estendesse a mão, despertaria a folhagem. Fechou os punhos. Haveria de
destruí-la, não era verdade que além daquele trapo detestável havia alguma coisa
mais, tudo não passava de um retângulo de pano sustentado pela poeira. Bastava
soprá-la, soprá-la!
Encontrou a velha na porta da loja. Sorriu irônica:
— Hoje o senhor madrugou.
— A senhora deve estar estranhando, mas…
— Já não estranho mais nada, moço. Pode entrar, pode entrar, o senhor
conhece o caminho.
“Conheço o caminho”, repetiu, seguindo lívido por entre os móveis. Parou.
Dilatou as narinas. E aquele cheiro de folhagem e terra, de onde vinha aquele
cheiro? E por que a loja foi ficando embaçada, lá longe? Imensa, real, só a
tapeçaria a se alastrar sorrateiramente pelo chão, pelo teto, engolindo tudo com
suas manchas esverdinhadas. Quis retroceder, agarrou-se a um armário,
cambaleou resistindo ainda e estendeu os braços até a coluna. Seus dedos
afundaram por entre galhos e resvalaram pelo tronco de uma árvore, não era uma
coluna, era uma árvore! Lançou em volta um olhar esgazeado: penetrara na
tapeçaria, estava dentro do bosque, os pés pesados de lama, os cabelos
empastados de orvalho. Em redor, tudo parado. Estático. No silêncio da
madrugada, nem o piar de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Inclinou-se
arquejante. Era o caçador? Ou a caça? Não importava, não importava, sabia apenas
que tinha que prosseguir correndo sem parar por entre as árvores, caçando ou
sendo caçado. Ou sendo caçado?… Comprimiu as palmas das mãos contra a cara
esbraseada, enxugou no punho da camisa o suor que lhe escorria pelo pescoço.
Vertia sangue o lábio gretado.
Abriu a boca. E lembrou-se. Gritou e mergulhou numa touceira. Ouviu o
assobio da seta varando a folhagem, a dor!
“Não…”, gemeu de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou
encolhido, as mãos apertando o coração.
Comentários
Postar um comentário